Ir para o conteúdo

Transcrição

00:10

Olá, chamo-me Alejandra Chacón. Head of Strategy na Havas Media Network.socióloga de formação As três palavras que melhor me definem são, por um lado,a coerência, por outro lado, a ordem mental, mas não a rigidez,e a terceira, a imaginação para ligar coisas que aparentemente não estavam presentes.

00:41

COMO LIDERAR SEM PERDER-SE A SI MESMA Gostaria de começar por contar uma historia que aconteceu em 2013,e lembro-me desse ano porque foi quando engravidei da minha primeira filha embora naquele momento ainda não o soubesse.

00:54

Na minha agência anterior tinhan feito uma consultoria sobre todas as pessoas que trabalhávamos lá.

01:00

Por isso, quando chegou a minha vez de davam-me feedback sobre o meu desempenho como profissional o que me disseram foi que era "um excesso de Eu",o que era um pouco confuso de digerir porque quando eu perguntava quais eram os comportamentos concretos ou as situações concretas em que esse "Eu" mítico a que se referiam, tinha sido um problema.

01:27

E a verdade é que não eram capazes de o definir naquele momento de forma concreta mas a ideia era mais ou menos que a minha pessoa ou a minha personalidade estavam muito presentes no meu trabalho.

01:42

Na verdade, acredito que esta é uma das grandes dificuldades que temos, muitas vezes, para saber quem somos no trabalho,pensar se aquilo que somos ou a forma como somos é a nossa melhor versão ou é a forma como lideramos.

02:00

Curiosamente, alguns anos depois, num processo pessoal que comecei, aprendi a identificar e aprendi também a abraçar e a ser muito mais amável e compreensiva com a pessoa que era, e também a identificar quais eram as minhas forças, as minhas fraquezas, os meus pontos fortes e os meus pontos fracos.

02:22

Curiosamente, a partir de saber quem sou,têm sido realmente os melhores anos da minha vida profissional.

02:31

Quando falamos muitas vezes em identificar como somos,às vezes pensamos que é algo que tem de ser imutável, mas isso também não é verdade.

02:41

No fim, essa aprendizagem também tem de andar de mãos dadas com aprender como te mover ou reagir, ou aquelas coisas que tens de aprender.

02:53

Também gerir-te dentro de uma organização ou num ambiente de trabalho.

03:01

MANAGEMENT À medida que te desenvolves numa estrutura profissional, vais ocupando cargos de direção,o certo é que, à medida que avanças, vais encontrar cada vez menos mulheres nessas reuniões, porque efetivamente a percentagem de mulheres nesses cargos de direção é cada vez menor. Estamos em torno de 30 %, enquanto em níveis de CEO, cerca de um 7 %.

03:31

A socióloga que há em mim tem tentado dar o seu grão de areia através da investigação social, concretamente no mundo da publicidade,para compreender o que acontece às mulheres nas organizações.

03:44

Através das minhas investigações, percebe-se que as dificuldades que enfrentam as mulheres,não são a nível pessoal mas ao nível estrutural,e têm a ver com o desenvolvimento profissional.

03:59

Para terem uma ideia, 30 % das mulheres na indústria publicitária sentem-se invisíveis no trabalho que realizam.

04:06

Têm muita dificuldade em ver reconhecido e valorizado o trabalho que realizam.

04:13

É preciso ter em conta que 70 % das alunas de publicidade em Espanha são mulheres, mas apenas cerca de 22 %,entre 22 % e 28 % de mulheres ocupam postos de direção criativa.

04:28

Além disso, no mesmo período, as mulheres demoram muito mais tempo para conseguir um posto de direção.

04:36

De facto, realizámos o teste com 20 anos de carreira: as mulheres têm 27 pontos percentuais menos de hipóteses de chegar a um posto de direção no mesmo período de carreira, sendo que é nos cargos de direção que a diferença salarial se acentua mais.

04:52

Além do que temos falado, o esforço que isso exige e o desgaste mental que acarreta visibilizar o nosso trabalho para continuar a progredir profissionalmente, para participar nos melhores projetos ligado a questões de conciliação, estando também muito relacionado com a carga mental que isso implica, faz efetivamente com que a situação das mulheres dentro das empresas seja algo que vá muito além de nós próprias.

05:32

ESTRATÉGIAS CONCRETAS PARA SOBREVIVER COMO MULHER NA LIDERANÇA Às vezes temos a sensação de que sendo complacentes conseguiremos que nos respeitem, e acho que aí nos enganamos.

05:44

Acho que uma das coisas que mais costumo pedir a nível profissional é confiança e digo-o abertamente.

05:51

Estive em reuniões, concursos,projetos nos quais precisava que me deixassem fazer o meu trabalho da melhor forma possível.

06:02

E o que éu pedi à sala, que normalmente, como vos digo,quanto mais acima, muitas vezes mais homens, é que me dessem o voto da confiança.

06:13

Peçamo-lo. Peçamos tambén a confiança para fazer as coisas, peçamos também que nos deixem contá-las sem medo.

06:22

É muito dificil que alguém te diga que não te concede 5 minutos para expor uma ideia quando estamos a falar.

06:29

Se alguém te estiver a interromper, podes dizer-lhe: "Desculpe, deixa-me acabar".

06:35

Mas isso tem de nascer da convicção de que tens a legitimidade e o direito de dizer aquilo que queres dizer.

06:45

E funciona, porque a realidade é que ninguém vai defender o teu trabalho por ti,e, embora isso possa causar alguma incomodidade, se tens de explicar alguma coisa, e fazer com que a sala se volte para ouvir o que tens de dizer,mantém a calma e fa-lo.

07:09

Acho que essa será a única maneira pela qual vais conquistando o respeito dos outros e ganhando também a confiança em ti própria. E insisto: a confiança treina-se. Treina-se.

07:27

Quais são as diferença entre homens e mulheres em cargos de liderança?

07:30

Em ambientes muito masculinizados é dificil,porque muitas vezes de forma inconsciente, mas é algo que acontece,eles estabelecem redes de camaradagem, obviamente de caráter masculino,e tu não fazes parte delas, porque coisas que podem parecer anedóticas, como "o mundo das palmadinhas": Se repararem,ao entrares numa reunião o num contexto em que os homens se encontram, essas "palmadinhas" nas costas acontecem.

08:02

Eu já vi às vezes palmadinhas na barriga,palmadinhas no ombro... As miúdas não nos damos palmadinhas,eu nunca recebo palmadinhas. Porquê?

08:13

Porque isso estabelece um código de camaradagem.A fase seguinte da reunião,se reparas, é falar de futebol.

08:21

Mesmo que não se conheçam muito, todos sabem de que equipa é cada um, então começam os comentáiros:"O qué é aconteceu ao Atleti de Madrid, ao Barça, ao Madrid..." "Sou mais do Madrid","e tu do Barça", sei lá. E o qué fizeram? Construíam uma rede.

08:38

Tudo isso também cria vínculos,relações de confiança, gera uma série de coisas que não se veem,e é aí que eu acho que reside a dificuldade.

08:54

A MULHER MADURA COMO PERFIL CRIATIVO Quando fizemos a investigação "Por que te vais", uma pesquisa sobre o abandono das mulheres em agências criativas em Espanha a partir dos 40 anos, porque o que acontece nas agências criativas em Espanha é que, a partir dos 35 anos há um grande salto,e praticamente uma debandada.

09:16

Uma das coisas que nos diziam era,sobretudo ligada a maternidade, a dificuldade de manter a agenda social da agência, da vida da agência, e o que é estritamente laboral.

09:30

Depois vai-se somando.Em geral, saímos da agência e vamos a tomar qualquer coisa, não de forma pontual,mas de forma sistemática.

09:38

E aí que também se desenvolvem as conversas laborais,onde se fala sobre os projetos, e muitas vezes até continuam a debater ideias que poderão ter surgido na agência.

09:50

Claro que, no momento em que nos afastamos desses encontros e dessa vida, seja por ter filhos e não poder ou querer, seja por não tê-los,mas mesmo assim não poder ou não querer há, de facto, uma penalização.

10:06

A percentagem das mulheres em cargos criativos com filhos que diziam que isso impactava negativamente a sua carreira era bastante elevada.

10:13

Se não me engano, rondava os 60 %.No caso dos homens em cargos criativos com filhos,o impacto não chegava aos 30 %.

10:22

Nos últimos anos, em Espanha, isso tem melhorado graças ao apoio de mais mulheres criativas e ao trabalho que se realiza nas universidades para fomentar que os cargos de entrada sejam paritários.

10:35

Mas depois surgem outras situações, como a diferença salarial nos cargos júnior ser praticamente inexistente.

10:42

No início, tanto homens como mulheres ganham o mesmo.

10:46

A diferença salarial começa a aparecer entre os 11 e os 15 anos de carreira.

10:53

É aí que as mulheres começam a ganhar menos.A isso juntam-se as possibilidade de promoção para cargos de direção,porque o verdadeiro salto é do cargo sénior para o cargo de direção.

11:08

Não conseguem ser promovidas, não conseguem passar de sénior para direção.

11:14

O que acontece?Que, efetivamente, quando chega uma maternidade o ter de enfrentar a conciliação, muitas mulheres decidem que não lhes compensa.

11:28

Não o decidem porque não gostem ou porque o seu grau de motivação seja diferente, porque é exatamente o mesmo,mas porque não lhes compensa: "estou a pagar-me menos e, além disso,as minhas possibilidade de promoção são muito menores".

11:43

Pelo que, num contexto que exige tantas horas de trabalho e tanta dedicação,se isso não se reflete numa progressão profissional ou um salário igualitário,e aí que muitas mulheres começam a abandonar a profissão.

12:04

Bom.- Perfeito.